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Banda de Música da Cidade de Espinho

I

As origens

1839

1814 – 1891

José Alves Neves

O Soqueiro – tamanqueiro de Mozelos

As origens da Banda de Espinho remontam ao ano de 1839, data em que foi fundada por José Alves Neves. O fundador da banda nasceu no dia 14 de fevereiro de 1814 no lugar de Prime, na freguesia de Mozelos, no seio de uma família de agricultores locais – Manuel Alves Coelho e Maria Joaquina das Neves. José era tamanqueiro, ofício que lhe valeu a alcunha de “Soqueiro”.  Este nome batizou e celebrizou a banda de música que fundou: a Banda do Soqueiro, que muito mais tarde originaria a Banda de Espinho.  1,2,3

Contexto histórico

A fundação da Banda do Soqueiro insere-se num período de profunda transformação em Portugal, após a extinção das ordens religiosas em 1834 e o fim das Guerras Liberais. À necessidade de manter viva a presença musical nas festividades e eventos da Igreja, somou-se, entre outros fatores singulares locais, o regresso dos soldados e o eco marcante das bandas militares, trazendo novas práticas musicais, novidades instrumentais e novos reportórios. Neste contexto, afirmaram-se as bandas filarmónicas civis, permitindo que artesãos, pequenos comerciantes e trabalhadores rurais se organizassem em torno da música, fenómeno acompanhado pela notável evolução que então ocorria nos instrumentos de sopro.

José casou com Maria d’Amorim em 1836, com quem gerou descendência. Contudo, a sua esposa faleceu cedo, com apenas 36 anos, em 1852. 4,5,6

Dois anos mais tarde, José casou com Albina de Jesus e, desta nova união, nasceu Joaquim Neves, em Mozelos, a 21 de março de 1857 – o filho que, muitos anos mais tarde, haveria de perpetuar o legado musical da família, sucedendo ao pai na regência da Banda do Soqueiro. 1,7,8

Sob a regência de José Alves Neves, a Banda do Soqueiro tornou-se uma das preferidas na região. Em Março de 1872 viveu um dos momentos mais distintos da sua história, tocando aquando da visita ao Porto e Gaia do último Imperador do Brasil, D. Pedro II, sendo-lhe conferida uma medalha comemorativa por essa participação. Poucos anos depois, c. 1875, esteve presente numa data marcante para Espinho (na época, apenas um lugar da freguesia de Anta, concelho da Feira) – a primeira paragem do comboio na estação então construída, prenúncio do crescimento que aquela localidade em breve conheceria. 1

ARTIGO DE JORNAL

O Povo d'Ovar

7 de Outubro de 1888

Festividade – Realizou-se com grande pompa a festividade em honra de S. Miguel (…).

Duas philarmonicas, a de Souto e a do Soqueiro, deram luctas durante o arraial, mas por caso força maior a musica do Soqueiro só chegou á meia noute (…).  No domingo pela manhã houve missa solemne, sermão e procissão tocando as duas phylarmonicas. 9

Numa altura em que Espinho ainda lutava pela sua autonomia administrativa, já a Banda do Soqueiro desfrutava de considerável fama. A criação da paróquia, em 1889, e consequentemente da freguesia, resultou de um longo processo de afirmação local, marcado por tensões com a vizinha paróquia de Anta, com o Concelho da Feira e com outros concelhos limítrofes. A par deste processo de afirmação, a Banda do Soqueiro consolidava-se como uma das referências musicais da região.

Festividade de S. Pedro em Pardilhó.

Programa – Dia 28

Às duas horas da tarde chegada das musicas da Vista Alegre e do Sr. Soqueiro que tocarão alternadamente até ao pôr do sol (…). 10

— O Povo d’Ovar |Ovar, 22 de Junho de 1890

José Alves Neves faleceu a 20 de agosto de 1891, com 77 anos, no lugar de Ordonhe, na freguesia de Argoncilhe, onde residia há vários anos. Deixou uma formação respeitável, com mais de meio século de história, e um nome que perduraria: “Soqueiro”. 1,3 

Brasão da Banda

1857 – 1925

Joaquim Alves de Souza Neves

Relojoeiro, músico e regente que ancorou a Banda do Soqueiro a Espinho

Joaquim Alves de Souza Neves continuou o legado do seu pai, assumindo a direção da Banda do Soqueiro. Foi graças a Joaquim que a Banda do Soqueiro se fixou e tomou definitivamente parte da vida cultural e social de Espinho. Nos anos seguintes, transformaria a banda que “herdou” do pai numa das formações mais requisitadas e elogiadas do norte do país. 1

Apesar de ter também tomado a alcunha de “Soqueiro”, que ficaria sempre ligada à família, Joaquim seguiu um percurso profissional muito diferente do seu pai – aprendeu jovem a arte de relojoeiro,  vindo mais tarde a constituir o seu próprio negócio. Residia em Ordonhe, Argoncilhe, quando casou, no ano de 1878. Após o casamento fixou residência no lugar de Grijó, em Argoncilhe, de onde a sua esposa, Escolástica Souza Neves, era natural. 11,12

Ainda residindo em Argoncilhe, deslocava-se frequentemente a Espinho na época balnear para negociar, aproveitando a afluência de banhistas à praia. Paralelamente, desenvolvia atividade como músico e  regente – em documentos oficiais era referido como músico de profissão desde 1883 – e foi nessa arte que se destacou, propiciando que o apelido Neves e a alcunha “Soqueiro” ficassem para sempre ligados à música em Espinho. 11,13,14

Em 1890 Joaquim e a família radicaram-se definitivamente em Espinho. Nesse ano, Joaquim estabeleceu uma relojoaria na Rua Cruzeiro (atual Rua 2), que servia igualmente de agência para a venda das famosas máquinas Singer. O avanço do mar, fenómeno que nessa época consumia progressivamente a frente urbana de Espinho, obrigou-o, anos mais tarde, a transferir o negócio para a Rua Bandeira Coelho (atual Rua 19). O estabelecimento viria a transformar-se na Ourivesaria Confiança e, embora já não pertença à família, mantém a sua atividade até hoje, sendo a casa comercial mais antiga de Espinho. 12,15,16

Anúncio | Gazeta de Espinho | 1901. 16

ARTIGOs DE JORNAL

Correio da Feira

5 de Setembro de 1897

Notícias de Espinho

No dia 29 (…) houve aqui uma grandiosa corrida de “bicycletas”, cavallos, garranos, andarilhos e outros mais divertimentos, abrilhantando-a a banda do nosso amigo snr. Neves (…). 17

26 de Julho de 1898

Espinho

Uma commissão tenciona festejar o S. João (…) na Avenida Bandeira Coelho. Durante a vespera e dia tocará no local a conceituada philarmonica do snr. Souza Neves. 18

Em 1899, a Banda do Soqueiro participou  nos festejos da criação do concelho de Espinho, tocando o Hino da Carta e o Hino da Independência de Espinho. No ano seguinte, a banda participou nos célebres festejos henriquinos e na solene inauguração do monumento erigido à memória do Infante D. Henrique, aquando da visita dos Reis à cidade do Porto, tocando no Largo de S. Domingos, a expensas dos moradores. Dias mais tarde, a Banda do Soqueiro participou também na cerimónia do assentamento da primeira pedra da Estação de S. Bento, no Porto. 1,19,20,21

Joaquim Neves (“Soqueiro”) gozava de enorme prestígio e, em Agosto de 1899, quando se constitui, em Espinho, a Banda da Real Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª, composta por operários da fábrica, é sobre ele que recai a escolha para seu primeiro regente.  Dirigiu a Banda da Fábrica e a do Soqueiro simultaneamente durante alguns anos, tendo-lhe sucedido na regência da Banda da Fábrica Joaquim Maia Sampaio e depois Serafim Coelho Campos. 22,23
(…) às quintas-feiras e domingos havia concerto pelas Bandas locais: Soqueiro – excelente conjunto – e a da fábrica Brandão Gomes. Executavam seus programas num elegante coreto improvisado defronte da Assembleia e ambas da regência de meu saudoso pai. 22

— Fausto Neves

ARTIGO DE JORNAL

Gazeta d'Espinho

9 de Agosto de 1903

Música

Por iniciativa de banheiros e negociantes e á custa de subscripção, uma banda de musica tocará todas as quintas-feiras no coreto do largo da Nossa Senhora da Ajuda. A banda de regencia do snr. Neves, realisou na última sexta-feira a inauguração d’este divertimento, fazendo ouvir com agrado varias peças do seu reportório. No coreto da avenida tocará aos domingos a afamada e bem regida banda da Real Fabrica de Conservas. 24

Na primeira década do século XX, Joaquim Neves era descrito como “exímio regente de Banda“, com a sua formação “justamente apreciada e melhor considerada nos concelhos próximos. 25,26
A Banda do Soqueiro integrou mais um marco da história local a 23 de novembro de 1908, ao tocar na recepção ao Rei D. Manuel II. A visita régia a Espinho, inserida numa viagem pelo norte de Portugal, ficou também assinalada pela inauguração do Caminho de Ferro do Vale do Vouga. 1,27

Contexto histórico IISeguiu-se um dos períodos mais instáveis da história portuguesa contemporânea, compreendendo o declínio final da Monarquia Constitucional, a implantação da Primeira República (1910), a Lei da Separação da Igreja do Estado (1911), a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, a epidemia de Gripe Espanhola e a progressiva desagregação do regime republicano até ao golpe militar de 1926.

O fim da Monarquia, em 1910, obrigou as bandas filarmónicas a uma rápida adaptação, substituindo repertório monárquico pelo republicano e adotando os novos símbolos nacionais como demonstração pública de lealdade ao novo regime.

A Lei da Separação da Igreja do Estado de Afonso Costa (1911) gerou um clima de tensão entre o poder republicano e as tradições religiosas, especialmente no Norte do país, profundamente católico, onde a resistência foi mais forte. Embora muitas bandas tenham conseguido manter a sua presença em festas religiosas e romarias, o financiamento das festividades sofreu um abalo significativo com esse radicalismo anticlerical, afetando consequentemente a atividade das bandas de música.

Apesar de toda a volatilidade social e política, a Banda do Soqueiro, manteve a presença em festas religiosas e romarias e fortaleceu a sua dupla função cívico-religiosa, prestando também serviço em solenidades republicanas e em eventos focados no recreio público. 28,29,30,31

Coreto do Jardim da Graciosa - Representação

Agosto de 1915 – A Câmara Municipal de Espinho contratava a “esplêndida Banda Soqueiro” para tocar no coreto do Jardim da Graciosa. 30

ARTIGO DE JORNAL

Gazeta de Espinho

3 de Outubro de 1915

Concertos

Continua todas as quartas-feiras a deliciar-nos com boa música a esplendida banda do sr. Soqueiro que se exibe no coreto do Jardim da Graciosa. 31

Em janeiro de 1916, esta formação executou o hino nacional para o Presidente da República, Bernardino Machado, em Espinho. A qualidade da banda continuava a ser frequentemente elogiada na imprensa local: “Por ocasião da abertura do Casino do Grande Hotel tocou no Jardim do mesmo a esplêndida banda de música “Soqueiro”. Como sempre foi magnífica a sua execução”. 32,33

A atividade musical de Joaquim Alves de Souza Neves não se restringia à filarmonia. O maestro dirigia outros agrupamentos e orquestras em teatros e revistas locais. Exemplo disso foi a orquestra que dirigiu na revista de 1918 “De Pêta e Bêta”, no Teatro Aliança, de que faziam parte os músicos Sebastião Ribeiro (trompete), Alberto Correia de Sousa (clarinete), António Torres (flauta), Teodoro Lima (contrabaixo) e os filhos de Joaquim, Ilídio Neves (violino) e Fausto Neves (piano). 34

Joaquim Neves legou a Espinho mais do que uma banda de música. Do mestre Joaquim Soqueiro brotou uma linhagem musical que viria a marcar profundamente a vida cultural local.
A geração seguinte da família Neves haveria de se destacar nos principais palcos culturais espinhenses.

A Banda do Soqueiro manteve a sua atividade, executando “os melhores trechos do seu rico reportório” sob a regência de Joaquim Alves de Souza Neves até ao seu falecimento. Joaquim faleceu com 68 anos de idade, na sua casa da Rua 19, em Espinho, no dia 20 de Outubro de 1925. Tinha liderado a formação durante mais de três décadas, atravessando a queda da monarquia, o tumulto da república, uma guerra mundial e uma pandemia. Deixou uma instituição, com nome, história e raízes definitivas em Espinho. 1,35,36,37

Brasão da Banda

Após a morte de Joaquim, a transição operou-se no seio da linhagem que ele cultivara: foi o seu filho Ilídio Neves que assumiu a batuta da banda, assegurando a continuidade e garantindo que o nome “Soqueiro” continuasse a ecoar com o mesmo brio pelas ruas e coretos de Espinho.1

Referências deste capítulo
[1] “A Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Espinho”, Defesa de Espinho, Espinho, 22 de Novembro de 1953, p. 1 e 3.
[2] Livro de Registo de Batismos da Paróquia de Mozelos, 1808-1844, Arquivo Distrital de Aveiro, DigitArq, ref. PT/ADAVR/PVFR16/2/6, p. 81.
[3] Livro de Registo de Óbitos da Paróquia de Argoncilhe, 1891, Arquivo Distrital de Aveiro, DigitArq, ref. PT/ADAVR/PVFR01/3/113, p. 30.
[4] Livro de Registo de Casamentos da Paróquia de Mozelos, 1808-1844, Arquivo Distrital de Aveiro, DigitArq, ref. PT/ADAVR/PVFR16/2/6.
[5] Livro de Registo de Batismos da Paróquia de Mozelos, 1845-1859, Arquivo Distrital de Aveiro, DigitArq, ref. PT/ADAVR/PVFR16/1/7.
[6] Livro de Registo de Óbitos da Paróquia de Mozelos, 1845-1859, Arquivo Distrital de Aveiro, DigitArq, ref. PT/ADAVR/PVFR16/1/7.
[7] Livro de Registo de Casamentos da Paróquia de Mozelos, 1845-1859, Arquivo Distrital de Aveiro, DigitArq, ref. PT/ADAVR/PVFR16/1/7.
[8] Livro de Registo de Batismos da Paróquia de Mozelos, 1845-1859, Arquivo Distrital de Aveiro, DigitArq, ref. PT/ADAVR/PVFR16/1/7.
[9] O Povo d’Ovar, Ovar, 7 de outubro de 1888, p. 2.
[10] O Povo d’Ovar, Ovar, 22 de Junho de 1890, p. 3.
[11] Livro de Registo de Casamentos da Paróquia de Argoncilhe, 1878, Arquivo Distrital de Aveiro, DigitArq, ref. PT/ADAVR/PVFR01/2/44, p. 9 e 10.
[12] “Fausto Neves – Suplemento do Nª741”, Maré Viva, Espinho, 7 de Novembro de 1991.
[13] Livro de Registo de Batismos da Paróquia de Argoncilhe, 1883, Arquivo Distrital de Aveiro, DigitArq, ref. PT/ADAVR/PVFR01/1/63, p. 77.
[14] Livro de Registo de Batismos da Paróquia de Argoncilhe, 1890, Arquivo Distrital de Aveiro, DigitArq, ref. PT/ADAVR/PVFR01/1/70, p. 17.
[15] “130 anos de Confiança”, Defesa de Espinho, Espinho, 12 de Março de 2020, p. 4, 5 e 6.
[16] Gazeta d’Espinho, Espinho, 14 de Abril de 1901, p. 4.
[17] Correio da Feira, Feira, 5 de Setembro de 1897, p. 3.
[18] Correio da Feira, Feira, 26 de Julho de 1898, p. 4.
[19] O Comércio do Porto, Porto, 22 de Setembro de 1899.
[20] O Comércio do Porto, Porto, 21 de Outubro de 1900.
[21] O Comércio do Porto, Porto, 23 de Outubro de 1900.
[22] “Recordações de Espinho de há 50 anos (IV)- Fausto Neves, Defesa de Espinho, Espinho, 9 de Janeiro de 1955.
[23] Câmara Municipal de Espinho (ed.). Cadernos de Espinho. Vol. 5: Melodias de sempre. Espinho, 2020.
[24] Gazeta d’Espinho, Espinho, 9 de Agosto de 1903, p. 2.
[25] Correio da Feira, Feira, 13 de Agosto de 1904, p. 2.
[26] Correio da Feira, Feira, 3 de Fevereiro de 1906, p. 3.
[27] O Comércio do Porto, Porto, 24 de Novembro de 1908, p. 2.
[28] Campeão das Províncias, Aveiro, 30 de Julho de 1913, p. 2.
[29] Correio da Feira, Feira, 15 de Agosto de 1914, p. 2.
[30] Gazeta de Espinho, Espinho, 29 de Agosto de 1915, p. 2.
[31] Gazeta de Espinho, Espinho, 3 de Outubro de 1915, p. 2.
[32] O Comércio do Porto, Porto, 31 de Janeiro de 1916
[33] Gazeta de Espinho, Espinho, 6 de Agosto de 1916, p. 3.
[34] Defesa de Espinho, Espinho, 11 de Fevereiro de 1962, p. 2.
[35] O Reformador, Espinho, 7 de Setembro de 1924, p. 1.
[36] O Reformador, Espinho, 25 de Janeiro de 1925, p. 2.
[37] O Reformador, Espinho, 25 de Outubro de 1925, p. 3.