II
A era dos Bombeiros
1926 - 1994
1883 – 1971
Ilídio Alves de Souza Neves
A terceira geração
A sua aprendizagem musical iniciou-se em casa, com o próprio pai. Ainda criança, juntamente com os irmãos Fausto e Albertina, que cantava, acompanhava com frequência o patriarca nos serviços religiosos, integrando o instrumental que o mestre Soqueiro reunia para as missas: a “Capella do Sr. Neves”. Revelou-se desde cedo um músico versátil, distinguindo-se sobretudo como violinista.2,5
Ilídio tornou-se uma presença musical regular nos meios sociais e culturais espinhenses. 6,7
Ainda solteiro, apresentava-se com regularidade em Espinho na qualidade de músico mas também como maestro. Tocava em duetos – frequentemente com o irmão Fausto ao piano – no Café Chinez e dirigia a orquestra espinhense “Lyra d’Ouro”, com a qual organizou, em 1908, uma récita no Teatro Aliança. No ano seguinte casou com a jovem espinhense Conceição Pinho. Em 1910 assumiu a direção da tuna do grupo “Alegre Mocidade de Espinho”, sendo o seu primeiro regente; mais tarde dirigiria também a tuna do “Espinho-Club”, fundada em 1915 a partir da fusão do “Grupo Alegre Mocidade” e do grupo “Grémio Imparciais”. 3,6,7,8,9,10
Nos serões do Café Chinez Ilídio era um dos músicos que frequentemente integrava as formações que se renovavam a cada temporada de veraneio, acompanhando a afluência de banhistas na época balnear. Em 1916 integrou o quinteto do violinista Efísio Anedda, juntamente com Vargas Nuñez (piano), Mario Vergé (violoncelo) e Eurico da Silva Antunes (contrabaixo). No ano seguinte, apresentava-se novamente com Efísio Anedda, num quinteto renovado, com os músicos Luiz Antunes (violoncelo), Eurico Antunes (contrabaixo) e Manuel Figueiredo (piano). No mesmo ano, tocou também com o “Terceto Neves”, composto por Ilídio (violino), Fausto Neves (piano) e Teodoro Lima (contrabaixo), que animava as noites com “esplêndidos números de música”. A sua atividade manteve-se nos anos seguintes, integrando diversas formações. 11,12,13,14
Em 1918, na revista “De Pêta e Bêta” encenada no Teatro Aliança, tocou violino ao lado do irmão Fausto (ao piano), de Sebastião Ribeiro (trompete), Alberto Correia de Sousa (clarinete), António Torres (flauta) e Teodoro Lima (contrabaixo), sob a regência do seu pai, Joaquim Alves de Souza Neves. Nos grupos que dirigia e em que tocava eram frequentemente executadas obras por si compostas, como “Valsa Lídia” e “Dança Creole” e as marchas “Patriótica” e “Capão”. 7,8,10,15,16
O seu trabalho era também apreciado fora do concelho. Em abril de 1920 participou num trio musical com João Alves Torres e Jaime Rocha, numa récita teatral na Vila da Feira. Tempos antes, tinha sido ensaiador, nessa mesma vila, da extinta Tuna Feirense. 17,18
Quando Joaquim Alves de Souza Neves faleceu, a 20 de outubro de 1925, foi Ilídio quem assumiu a liderança da Banda do Soqueiro, nome que a formação continuou a usar e pelo qual ainda era conhecida, mesmo após o desaparecimento de Joaquim. 19,20,21,22
ARTIGO DE JORNAL
O Comércio do Porto
2 de Dezembro de 1926
Em reunião de Direção da Associação dos Bombeiros Voluntários de Espinho foi aceite com muita satisfação o alistamento da antiga e magnífica música do Sr. Neves Soqueiro, na Corporação dos Bombeiros Voluntários de Espinho ficando a referida Banda a denominar-se Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Espinho (Antiga Soqueiro).23
A Primeira Banda dos BombeirosMuito antes da agregação da Banda do Soqueiro aos Bombeiros Voluntários de Espinho, existiu, durante um curto período, uma outra banda integrada na corporação. Em julho de 1913, na assembleia geral da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, entre os assuntos da ordem do dia, foi discutida formalmente “a criação de uma banda de música anexa à corporação”. Serafim Coelho Campos, antigo regente da banda da Fábrica Brandão Gomes, foi escolhido para presidir a comissão constituída para esse efeito. Os proprietários da fábrica de conservas ofereceram à associação todos os instrumentos e partituras da então extinta Banda da Fábrica. 8,24,25
A banda manteve-se em preparação durante o inverno e a corporação procedeu à “aquisição de uma farda vistosa”, tendo a sua estreia ocorrido em Junho de 1914. Em agosto desse ano, a Banda dos Bombeiros fazia-se ouvir três vezes por semana no Jardim Sport-Club. Neste período, a Banda do Soqueiro e a Banda dos Bombeiros coexistiram, sem que houvesse nenhuma relação entre si. 26,27,28
No decorrer desse verão existiram algumas polémicas e trocas de argumentos veiculadas no periódico local (Gazeta de Espinho), envolvendo a Direção, a Banda e correspondentes de outras publicações. A última referência à atuação da primeira Banda dos Bombeiros é de Setembro de 1914, em Espinho, fazendo-se supor a sua progressiva a extinção. 29,30,31,32
Paralelamente, Ilídio continuava envolvido noutros projetos musicais, destacando-se a sua participação no grupo “Alegre’s Espinho-Jazz” que animava bailes e serões nos diferentes clubes locais. Este grupo era dirigido pelo seu filho, o jovem talentoso Fausto Neves (sobrinho). O grupo passou a denominar-se “Espinho Melody- Band” e mais tarde adotou definitivamente o nome “Orquestra Melódica de Espinho”, sendo composto originalmente por Sebastião Ribeiro (trompete), Ilídio Neves (violino), Fausto Neves – sobrinho (piano), Alberto Lima (contrabaixo), José Macêdo (saxofone), Fernando Lopes (trombone), Manuel Fonseca (bateria-jazz) e Mário Carvalho (voz). Em 1936 surgiu a intenção de renovar o fardamento da banda. Com esse fim, foram organizadas sessões cinematográficas que contavam com a colaboração da Orquestra Melódica de Espinho que, desta forma, apoiava a atividade da banda, graças à estreita relação com o chefe da banda. 39,40,41,42
Com o intuito de aumentar o número de componentes residentes em Espinho, permitindo o aperfeiçoamento da Banda dos Bombeiros Voluntários de Espinho, Ilídio Neves promoveu no início do ano de 1937 a abertura de um “curso de música” para aprendizes, que funcionava 3 vezes por semana, numa das dependências do quartel. As aulas eram inteiramente gratuitas, sendo aceites todos os jovens do sexo masculino que demonstrassem vontade de aprender música. Constituía-se assim a primeira escola de música da banda, onde receberam as primeiras luzes musicais numerosos artistas que haveriam de ocupar importantes lugares nas mais relevantes orquestras e bandas militares. 19,43
A atividade da banda decorreu com normalidade nos anos seguintes mas a problemática do fardamento manteve-se. No primeiro trimestre de 1942 a banda decide promover várias iniciativas a fim de poder adquirir um uniforme à altura do seu nome e categoria. Foi constituída a Comissão de Amigos da Banda dos Bombeiros Voluntários de Espinho para promover a angariação de fundos: Benjamim da Costa Dias – Presidente; Comandante Joaquim Mateiro – Vice-Presidente; Alberto de Bastos Maia – Tesoureiro; António Dias Coelho – Secretário; Pompeu Duarte de Araújo – Vogal. Foi lançada uma subscrição, cujo primeiro subscritor foi o próprio tesoureiro da Comissão, Alberto Bastos Maia, que era também vereador substituto da Câmara e representante das empresas de pesca do concelho de Espinho junto do Departamento Marítimo do Norte. A situação era crítica e urgia a sua resolução. A banda via-se na eminência de não poder aceitar certos contratos por não ter um fardamento com a categoria necessária.44,45,46
ARTIGO DE JORNAL
Defesa de Espinho
19 de Abril de 1942
A Comissão de Amigos da Banda trabalhou arduamente e enviou delegados a várias entidades e localidades. Do Bairro Piscatório da Mata à colónia espinhense de Matosinhos, foram-se somando as contribuições. Ilídio Neves, chefe da banda, era também delegado nestas iniciativas e tinha uma lista de subscrição a seu cargo. 47,48,49
O uniforme a adquirir importava em cerca de 10.000$00, uma quantia muito relevante na época. Infelizmente, o bairrismo de alguns não foi suficiente e não foi possível atingir essa meta atempadamente. Assim, em Junho de 1942, a banda teve de se apresentar numa função à paisana. 48,50