II
A integração nos Bombeiros
1926-1955
1883 – 1971
Ilídio Alves de Souza Neves
A terceira geração
Ilídio Neves nasceu no lugar de Grijó, em Argoncilhe, a 8 de outubro de 1883. Ali passou os primeiros anos da sua infância, até a família se fixar definitivamente em Espinho, em 1890. Seguiu as pisadas do pai e aprendeu também o ofício de relojoeiro, mas seria também noutro palco, o da música, que deixaria uma marca indelével. 1,2,3,4
A sua aprendizagem musical iniciou-se em casa, com o seu pai. Ainda criança acompanhava o pai nos serviços religiosos, integrando o instrumental que o mestre Soqueiro reunia para as missas – a “Capella do Sr. Neves“, juntamente com os irmãos Fausto e Albertina, que cantava. Revelou-se desde cedo um músico versátil, distinguindo-se sobretudo no violino.2,5
Ainda solteiro, apresentava-se com regularidade em Espinho na qualidade de músico e também como maestro. Tocava em duetos no Café Chinez, frequentemente com o seu irmão Fausto Neves ao piano, e dirigia a orquestra espinhense “Lyra d’Ouro”, com a qual organizou, em 1908, uma récita no Teatro Aliança. No ano seguinte casou com a jovem espinhense Conceição Pinho. Em 1910 assumiu a direção artística da tuna do grupo “Alegre Mocidade de Espinho”, sendo o seu primeiro regente; mais tarde dirigiu também a tuna do “Espinho-Club”, fundada em 1915 a partir da fusão do “Grupo Alegre Mocidade” e do grupo “Grémio Imparciais”. 3,6,7,8,9,10
Ilídio tornou-se uma presença musical regular nos meios sociais e culturais espinhenses. 6,7
Nos serões do Café Chinez Ilídio era um dos músicos que frequentemente integrava as formações que se renovavam a cada temporada de veraneio, acompanhando a afluência de banhistas na época balnear. Em 1916 integrou o quinteto do violinista Efísio Anedda, juntamente com Vargas Nuñez (piano), Mario Vergé (violoncelo) e Eurico da Silva Antunes (contrabaixo). No ano seguinte, apresentava-se novamente com Efísio Anedda, num quinteto renovado, com os músicos Luiz Antunes (violoncelo), Eurico Antunes (contrabaixo) e Manuel Figueiredo (piano). Para além de outras formações, era também integrante do “Terceto Neves”, composto por Ilídio (violino), Fausto Neves (piano) e Teodoro Lima (contrabaixo), que animava as noites com “esplêndidos números de música”. 11,12,13,14
Em 1918, na revista “De Pêta e Bêta” encenada no Teatro Aliança, participou na orquestra, como violinista, juntamente com o irmão Fausto (ao piano), o conterrâneo Sebastião Ribeiro (trompete), Alberto Correia de Sousa (clarinete), António Torres (flauta) e Teodoro Lima (contrabaixo), sob a regência do seu pai, Joaquim Alves de Souza Neves. Nos grupos em que participava, como músico ou maestro, eram frequentemente executadas obras por si compostas, como “Valsa Lídia”, “Dança Creole”, “Marcha Patriótica” e “Capão”. 7,8,10,15,16
O seu trabalho era igualmente apreciado fora do concelho. Por exemplo, em abril de 1920 integrou um trio musical com João Alves Torres e Jaime Rocha, numa récita teatral na Vila da Feira. Tempos antes, nessa mesma vila, tinha sido ensaiador da extinta Tuna Feirense. 17,18
Quando Joaquim Alves de Souza Neves faleceu, a 20 de outubro de 1925, foi Ilídio quem assumiu a liderança da Banda do Soqueiro, nome que a formação continuou a usar e pelo qual ainda era conhecida, mesmo após o desaparecimento de Joaquim. 19,20,21,22
Pouco mais de um ano depois de Ilídio assumir a regência da Banda do Soqueiro, no final de 1926, a banda viveu um dos momentos mais importantes da sua história: a agregação aos Bombeiros Voluntários de Espinho, passando a pertencer, definitivamente e de pleno direito, à comunidade espinhense. 19,23
ARTIGO DE JORNAL
O Comércio do Porto
2 de Dezembro de 1926
Em reunião de Direção da Associação dos Bombeiros Voluntários de Espinho foi aceite com muita satisfação o alistamento da antiga e magnífica música do Sr. Neves Soqueiro, na Corporação dos Bombeiros Voluntários de Espinho ficando a referida Banda a denominar-se Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Espinho (Antiga Soqueiro).23
A proposta partiu do vice-presidente da Direção dos Bombeiros, Benjamim da Costa Dias, e foi recebida com grande entusiasmo. Foi assegurada a preservação da autonomia da Banda e a continuidade do seu maestro, a quem foi conferida a patente de 1.º patrão-chefe da Banda. Ficou também resolvida a problemática da ausência de um local adequado para os ensaios da Banda. A escritura notarial foi realizada em 9 de Dezembro de 1926, constando as assinaturas de Ilídio Alves de Souza Neves, neto do fundador, e Joaquim Moreira da Costa Júnior, em representação dos bombeiros. 8,19
A Primeira Banda dos BombeirosMuito antes da agregação da Banda do Soqueiro aos Bombeiros Voluntários de Espinho, existiu, durante um curto período, uma outra banda integrada na corporação. Em julho de 1913, na assembleia geral da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, entre os assuntos da ordem do dia, foi discutida formalmente “a criação de uma banda de música anexa à corporação”. Serafim Coelho Campos, antigo regente da banda da Fábrica Brandão Gomes, foi escolhido para presidir a comissão constituída para esse efeito. Os proprietários da fábrica de conservas ofereceram à associação todos os instrumentos e partituras da então extinta Banda da Fábrica. 8,24,25
A banda manteve-se em preparação durante o inverno e a corporação procedeu à “aquisição de uma farda vistosa”, tendo a sua estreia ocorrido em junho de 1914. Em agosto desse ano, a Banda dos Bombeiros fazia-se ouvir três vezes por semana no Jardim Sport-Club. Neste período, a Banda do Soqueiro e a Banda dos Bombeiros coexistiram, sem que houvesse nenhuma relação entre si. 26,27,28
No decorrer desse verão desenvolveram-se algumas polémicas e trocas de argumentos veiculadas no periódico local (Gazeta de Espinho), envolvendo a Direção, a Banda e correspondentes de outras publicações. A última referência à atuação desta primeira banda dos Bombeiros é de Setembro de 1914, o que sugere a sua extinção. 29,30,31,32
Nos anos que se seguiram à integração nos Bombeiros Voluntários, a Banda do Soqueiro granjeou enorme prestígio graças aos esforços e à “inteligente regência” de Ilídio Neves, que “dirigia superiormente” o grupo. A Banda contava também com um coro composto pelos seus músicos que abrilhantava as cerimónias religiosas das festividades em que a Banda tocava. Pelo apreço em que era tida, a Banda participava nas mais importantes festividades. Por exemplo, em 1927, a Banda participou nos imponentes festejos ao Mártir S. Sebastião, nos Olivais, tendo sido alvo de grandes elogios. Localmente, a Banda continuava a atuar com regularidade nas festas e coretos de Espinho. 19,33,34,35,36,37,38
Paralelamente, Ilídio continuava envolvido noutros projetos musicais, destacando-se a sua participação no grupo “Alegre’s Espinho-Jazz” que animava bailes e serões nos diferentes clubes locais. Este grupo era dirigido pelo seu filho, o jovem talentoso Fausto Cassiano Neves. O grupo passou a denominar-se “Espinho Melody-Band” e mais tarde adotou definitivamente o nome “Orquestra Melódica de Espinho”, sendo composto originalmente por Sebastião Ribeiro (trompete e compositor), Ilídio Neves (violino), Fausto Cassiano (piano), Alberto Lima (contrabaixo), José Macêdo (saxofone), Fernando Lopes (trombone), Manuel Fonseca (bateria-jazz) e Mário Carvalho (voz). Fruto da estreita relação com Ilídio, este grupo colaborava frequentemente em iniciativas realizadas em prol da Banda, como foram exemplo as atuações nos intervalos das sessões cinematográficas organizadas em 1936, quando surgiu a intenção de renovar o fardamento da banda. 39,40,41,42
Muitos músicos iniciaram-se na música na Banda do Soqueiro e lá desenvolveram as suas capacidades. No entanto, a Banda não dispunha propriamente de uma escola onde os jovens espinhenses pudessem aprender. Com o intuito de aumentar o número de componentes residentes em Espinho, permitindo também o aperfeiçoamento da sua Banda, Ilídio Neves promoveu no início do ano de 1937 a abertura de um “curso de música” para aprendizes, que funcionava 3 vezes por semana, numa das dependências do quartel. As aulas eram inteiramente gratuitas, sendo aceites todos os jovens do sexo masculino que demonstrassem vontade de aprender música. Constituía-se assim a primeira escola de música da banda, onde receberam as primeiras luzes musicais numerosos artistas que haveriam de ocupar importantes lugares nas mais relevantes orquestras e bandas militares. 19,43
No primeiro trimestre de 1942, mantendo-se a problemática do fardamento, a Banda decidiu promover várias iniciativas a fim de poder adquirir um uniforme à altura do seu nome e categoria. A Banda via-se na iminência de não poder aceitar certos contratos por não ter um fardamento com a categoria necessária. Foi constituída uma Comissão de Amigos da Banda dos Bombeiros Voluntários de Espinho para promover a angariação de fundos, composta por: Benjamim da Costa Dias – Presidente; Comandante Joaquim Mateiro – Vice-Presidente; Alberto de Bastos Maia – Tesoureiro; António Dias Coelho – Secretário; Pompeu Duarte de Araújo – Vogal. Foi lançada uma subscrição, cujo primeiro subscritor foi o próprio tesoureiro da Comissão. A situação era crítica e a sua resolução urgia. 44,45,46
ARTIGO DE JORNAL
Defesa de Espinho
19 de Abril de 1942
A Comissão de Amigos da Banda trabalhou arduamente e enviou delegados a vários locais e entidades. Do Bairro Piscatório da Mata à colónia espinhense de Matosinhos, foram-se somando as contribuições. Ilídio Neves, chefe da banda, era também delegado nestas iniciativas e tinha uma lista de subscrição a seu cargo. 47,48,49
O uniforme a adquirir importava em cerca de 10.000$00, uma quantia muito relevante na época. Infelizmente, o empenho da comissão e o bairrismo dos subscritores não foram suficientes para permitir que essa meta fosse atingida atempadamente. Assim, em junho de 1942, a Banda viu-se forçada a comparecer numa função à paisana. De facto, só em junho de 1943 foi possível estrear o novo fardamento, ainda que incompleto, num concerto no coreto da Graciosa. 48,50,51
O ano seguinte marcou da forma mais penosa a vida pessoal de Ilídio Neves e, indiretamente, da Banda de Música – a 17 de Setembro de 1944, o seu filho Fausto morreu, com apenas 30 anos, vítima de tuberculose. Fausto Cassiano de Pinho Neves era um músico de grande valor, de quem muito ainda se esperava. Fausto tocava oboé mas era no piano que mais se distinguia, integrando agrupamentos importantes como a Orquestra Melódica de Espinho e a Orquestra Palácio. Fausto era apontado como o natural sucessor de Ilídio na regência da Banda dos Bombeiros Voluntários de Espinho e recaía sobre ele uma enorme expectativa. Menos de dois anos depois, Ilídio perdeu também a sua filha, Maria Efísia, com a mesma enfermidade. Ilídio Neves manteve-se nos anos seguintes como regente, mas a atividade da Banda decorria sem a notoriedade e vigor de outros tempos. 50,52,53
Em 1954 inicia-se uma notável remodelação da Banda. Apesar de a Banda estar ainda integrada nos Bombeiros Voluntários de Espinho, constituiu-se uma Direção Autónoma da Banda para proceder à sua gestão administrativa e à sua reestruturação. A Direção da Banda tomou posse em agosto, sendo constituída por: Benjamim da Costa Dias (Presidente); José de Sousa Marques (Vice – Presidente); Hamilton Neto (Secretário); Teófilo da Costa e Sá (Tesoureiro) e Vitorino Casal Ribeiro (Vogal). Depois de ter sido o responsável pela proposta de agregação da Banda do Soqueiro aos Bombeiros e após ter liderado a Comissão de Amigos da Banda, Benjamim da Costa Dias, fundador do jornal “Defesa de Espinho”, surge novamente liderando os esforços para impulsionar a Banda de Música de Espinho. A Direção a que presidia relançou a escola de música para formação de novos músicos. As lições eram ministradas no 1º andar do edifício onde estiveram instalados os Paços do Concelho, na Rua 8. Esse espaço havia sido cedido por Júlio Mateiro, no início do ano, para a realização dos ensaios da Banda, uma vez que não existia nenhum recinto apropriado disponível na sede dos Bombeiros Voluntários. Foi também elaborado um regulamento interno e foram encetadas diligências para estreitar o mais possível as relações entre a Banda e os Bombeiros. A mais relevante decisão foi a nomeação de um sub-regente da Banda para auxiliar Ilídio Neves e para reger a escola de música. Foi designado para o efeito o conhecido professor e distinto artista, Joaquim Teixeira. Estava assim preparado o caminho para a sucessão de Ilídio Neves. 54,55,56,57
No começo do ano de 1955, Ilídio declarou que, devido à sua idade – 71 anos, não se sentia capaz de enfrentar a crise de que a Banda ultimamente se vinha ressentindo. Joaquim Teixeira foi nomeado regente efetivo e Ilídio Neves foi promovido à categoria de regente honorário. Cento e dezasseis anos depois de José Alves Neves, o “Soqueiro”, ter fundado a banda, a direção artística deixava de estar a cargo da família Neves. Nesse ano, que ficou também marcado pelo desaparecimento de Fausto Neves, irmão de Ilídio e reconhecido músico e compositor espinhense, terminava a regência dinástica de uma Banda que já era, havia muito, pertença de todos os espinhenses. 58,59
Nos trinta anos da sua regência, Ilídio Neves liderou a Banda em momentos decisivos da sua história, como a agregação aos Bombeiros, e foi responsável pela formação de inúmeros músicos, lançando a primeira escola de música da Banda. 58,59