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Banda de Música da Cidade de Espinho

V

Uma nova era

2005-Atualidade

1. A Transição de Século: Da Incerteza Operacional à Reorganização Institucional

A viragem do milénio assinalou o fim definitivo de um dos períodos mais conturbados da história da Banda de Música da Cidade de Espinho. Após anos de profunda incerteza, marcados pela falta de instalações próprias e pelo desalojamento forçado, a instituição viveu momentos de grande sacrifício logístico e financeiro. Sem um espaço fixo para a sua atividade diária no concelho, a coletividade viu-se obrigada a ensaiar num mini pavilhão no Juncal, em S. Félix da Marinha, mediante o pagamento de um aluguer mensal. Posteriormente, os ensaios passaram a decorrer no Fórum de Arte e Cultura de Espinho (FACE), que serviu de acolhimento temporário para a preparação do corpo ativo.

Pese embora os constrangimentos económicos e a suspensão do projeto da sede própria no terreno cedido pela Câmara Municipal no Bairro da Ponte de Anta — motivada pela escassez de fundos e pela conjuntura socioeconómica —, a direção e os músicos mantiveram o foco na reconstrução da base associativa. A afirmação da designação oficial “Banda de Música da Cidade de Espinho”, adotada na transição para o novo século, serviu como catalisador de uma nova fase de credibilidade, dignidade e afirmação no panorama cultural regional e nacional.

2. A Formação Humana e Artística: A Escola de Música e a Renovação Geracional

O pilar sustentador desse processo de refundação residiu na estruturação rigorosa da Escola de Música. Consciente de que o futuro da instituição dependia da capacidade de atração e retenção de jovens talentos, a direção direcionou esforços para o ensino dos instrumentos de sopro e percussão. A formação deixou de ser meramente empírica e passou a integrar programas pedagógicos estruturados, capazes de preparar os alunos tanto para as exigências do repertório filarmónico como para a eventual integração no ensino artístico especializado em conservatórios e escolas superiores.

Este investimento regular na formação jovem gerou uma forte renovação nos naipes. A Banda passou a captar executantes não apenas do concelho de Espinho (incluindo Anta e o centro urbano), mas também de localidades vizinhas como Santa Maria da Feira, Paços de Brandão e Grijó, criando um corpo ativo coeso, jovem e de elevado rigor técnico. Paralelamente, o surgimento da Orquestra Jovem funcionou como um patamar intermédio e pedagógico fundamental, proporcionando aos alunos a experiência prática de conjunto, o trabalho de naipe e a vivência de palco antes da transição definitiva para o agrupamento principal.

3. A Mudança de Paradigma: A Chegada de Hélder Tavares e a Inovação Estética

No ano de 2005, a direção da Banda, sob a presidência de Artur Ribeiro, tomou a decisão estratégica de apostar no jovem maestro Hélder Tavares (natural de Santa Maria da Feira) para assumir a regência. Esta nomeação marcou uma viragem conceptual profunda na identidade da coletividade. Sob a sua liderança artística, a Banda iniciou uma transição do modelo tradicional, focado quase exclusivamente em arruadas, romarias e atuações de coreto, para um modelo de auditório e sala de concertos.

A mudança traduziu-se num aumento significativo da exigência técnica, no rigor da afinação e na introdução de um repertório moderno, com obras de grande complexidade compostas especificamente para banda de música. As apresentações passaram a incluir momentos performativos diferenciados, integrando elementos de encenação, dança e coreografias no próprio palco — como se verificou de forma inédita nas festividades em honra de Nossa Senhora da Ajuda.

A cumplicidade entre a regência e a estrutura associativa traduziu-se também em iniciativas de grande proximidade comunitária. Destacam-se o dinamismo do músico e diretor artístico Moisés Couto nas tradições do Grupo das Janeiras (com poemas de Manuel Sancebas), a criação do Coro da Banda de Música, e a promoção conjunta do 1.º Festival Ibérico de Bandas Filarmónicas em junho de 2006, em parceria com a Junta de Freguesia de Espinho. Neste evento, que reuniu no Parque João de Deus e na Praia da Baía agrupamentos como a Banda Artística de Merza e a Banda-Escola de Beade (Espanha) e a Banda Amizade de Aveiro, executou-se conjuntamente a marcha “Homenagem a Guilherme Faria”, celebrando a memória do histórico benemérito da instituição.

4. Grandes Palcos, Registos Discográficos e Projeção Internacional

A consolidação da qualidade artística refletiu-se na agenda de concertos e no convite para palcos de grande prestígio nacional e internacional. No plano competitivo e de avaliação nacional, a Banda marcou presença em novembro de 2006 no II Concurso Nacional de Bandas Filarmónicas Cidade de Aveiro, recebendo rasgados elogios do público e dos comentadores. A este percurso somam-se as atuações na Sala Suggia da Casa da Música, onde se apresentou acompanhada por cinco corais reunindo cerca de 150 elementos em 2009, e no Congresso Mundial do Clarinete, tocando ao lado de solistas de dimensão internacional.

No Europarque, em Santa Maria da Feira, a Banda assumiu a abertura do II Festival de Bandas “Filarmonia ao mais alto nível”, atuando perante uma plateia de 1 300 espetadores. O concerto, muito elogiado por um painel de 16 comentadores e peritos do meio musical, ficou marcado por interpretações de obras como Caminho para a Índia (de Samuel Pascoal) e Paris Montmartre, bem como pela prestação do tema Jubileu a João Sá, em homenagem a este músico pelos seus 75 anos de dedicação ininterrupta à instituição.

A evolução do perfil musical refletiu-se igualmente na sua discografia. Em contraste com o trabalho discográfico registado em 2001, a instituição gravou em 2007 um novo CD dedicado exclusivamente ao repertório de compositores portugueses. Este trabalho integrou a peça de destaque “Apelo do Mar”, uma obra evocativa das gentes de Espinho e do seu elemento identitário marítimo.

Além-fronteiras, a projeção da Banda afirmou-se com particular notoriedade em Espanha. Desde a sua estreia no I Festival Hispano-Luso de Bandas de Música y Ensambles de Viento em Zamora (agosto de 2006), a coletividade manteve uma presença continuada e renovada neste certame e nas festividades da Semana Santa local. As atuações da Banda nas praças espanholas chegaram a reunir públicos de cerca de duas mil pessoas, afirmando-se como uma autêntica embaixadora cultural do concelho de Espinho.

5. O Reconhecimento Competitivo, os Estágios de Aperfeiçoamento e o Futuro

No domínio dos concursos, o empenho técnico do coletivo traduziu-se em distinções oficiais de relevo. A Banda alcançou o 2.º Lugar na 1.ª Categoria no Concurso de Bandas do Ateneu Artístico Vilafranquense, em Vila Franca de Xira, obtendo a notável pontuação de 92,8 pontos em 100 possíveis (além da distinção no “Prémio Tauromaquia”). Anos mais tarde, em 2019, o prestígio internacional foi reafirmado com a conquista do Prémio Banda de Música Maestro Lupi no II Certamen Internacional de Bandas de Música Ciudad de Benavente, perante um júri internacional constituído por Isabel M.ª Rubio, José Alberto Pina e Johan de Meij.

Para sustentar este patamar de exigência, a coletividade instituiu a prática dos Estágios de Aperfeiçoamento da Banda de Música da Cidade de Espinho. Iniciados em 2008 sob a regência do maestro convidado José Ignacio Petit Matias e continuados com regentes como Délio Gonçalves e o maestro alemão Denis Laile (em 2015), estes estágios proporcionaram aos músicos o contacto com novas filosofias de trabalho e técnicas de ensaio. A própria comunidade envolveu-se ativamente no desenvolvimento da banda, participando em campanhas públicas de angariação de fundos destinadas à aquisição de instrumental pesado de percussão, como tímpanos, marimbas e láminas.

Equilibrando a tradicional atividade de concertos e romarias de norte a sul do país e em Espanha com a presença nas grandes salas de espetáculo, a antiga Banda do Soqueiro — fundada em 1839 por um tamanqueiro de Mozelos — consolidou a sua posição como instituição de referência no panorama filarmónico. Superadas as vicissitudes do desalojamento e do percurso histórico, a Banda de Música da Cidade de Espinho projeta-se no seu terceiro século de vida com rigor pedagógico, sustentabilidade institucional e uma clara ambição artística.