III
Depois dos Neves
1955-1994
O ano de 1955 ficou marcado por uma profunda reorganização da Banda de Música de Espinho. Joaquim Teixeira, que já era o responsável pela escola de música, foi nomeado regente efetivo e a Direção que havia tomado posse em 1954 comprometeu-se a renovar o instrumental e o fardamento. A reestruturação importou num montante superior a 50 contos e foi possível graças ao financiamento inicial dos próprios membros da Direção Autónoma da Banda. 1,2,3
Joaquim Teixeira ensaiava a Banda duas vezes por semana. O grupo cuja regência assumiu encontrava-se em franca decadência, mas o professor, violinista e conceituado maestro de várias orquestras e tunas da região, conseguiu, em pouco tempo, alcançar excelentes resultados, graças ao seu paciente e profícuo trabalho. 4,5
Benjamim da Costa Dias
— Apelo na primeira página do jornal Defesa de Espinho
No dia 9 de junho de 1955, foi oficialmente apresentada a Banda de Música de Espinho renovada, sob a hábil regência de Joaquim Teixeira, com novo estandarte, novo instrumental e novo fardamento. 7,8
Encontrando-se o conjunto já devidamente fardado e dotado do melhor instrumental, a Direção prosseguia com os esforços de angariação de fundos para saldar o investimento efetuado e para garantir o futuro da associação. Eram organizados saraus, bailes e subscrições a favor dos cofres da Banda. Exemplos notáveis dessas subscrições foram as promovidas por Alberto Fernandes Padrão em Caracas, na Venezuela, e por Luís Ferreira da Costa no Rio de Janeiro, Brasil, que alcançaram valores muito relevantes. 9,10,11
Nos primeiros anos decorridos após esta reforma, a evolução foi notória e a procura pelos serviços da Banda aumentou consideravelmente. Se em 1955 a filarmónica tinha participado em apenas dezasseis festividades, no ano de 1956 atuou em trinta e cinco festas e dez concertos. No ano seguinte a Banda tocou em trinta e duas festas e 9 concertos. Nestes anos, inserindo-se no programa das Festas de Verão, a Banda tocava semanalmente, às quintas-feiras, no Coreto da Graciosa, nos meses de julho, agosto e setembro. Nos anos subsequentes a Banda de Música de Espinho manteve um elevado número de atuações em Espinho e por todo o Norte do país. 12,13,14
Festas de Verão - Espinho
Concerto - 09/07/1959
1.ª Parte
El Barbaña – Manuel Gonzalez
Roberto el diablo – Giacomo Meyerbeer
Miscelânea Portuguesa – Joaquim Teixeira
2.ª Parte
Evocación – Emilio Cebrián Ruiz
Costa Verde – Fausto Neves
Teófilo – Álvaro Neves
(marcha dedicada a Teófilo da Costa e Sá, tesoureiro da Banda e da J. F. de Espinho) 15
Por motivos de saúde, depois de quatro anos de muita dedicação, Joaquim Teixeira renunciou à regência da Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Espinho. Neste período, conseguiu recuperar uma parcela relevante do prestígio que esta filarmónica tinha em tempos alcançado. Para assumir o papel de regente, a Direção escolheu António Martins, distinto maestro com competência sobejamente reconhecida na região. 16
António Martins era natural da Vila da Feira e havia sido músico da Banda da G.N.R., da Orquestra Sinfónica do Fernandes Fão e da Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto (precursora da Orquestra Sinfónica do Porto). Assumiu o cargo de maestro da Banda após ter comandado a Banda de São João da Madeira e a Banda de Pinheiro da Bemposta. António Martins promoveu uma atualização do repertório da banda, mas esteve em funções apenas até ao final da temporada de 1960, protagonizando um curto período de regência da Banda. 17,18,19,20
O ano de 1960 fica também marcado pelo papel de relevo que assumiram três importantes figuras, que se revelariam de grande valor nos anos seguintes:
– Francisco Gomes de Castro, que integrou a direção como 1.º Secretário, desempenhando também importantes funções na Comissão de Festas da Ajuda (as festas em honra de Nossa Senhora da Ajuda eram organizadas pela Banda de Música de Espinho, tradição que se manteve ainda durante as décadas seguintes);
– João Sá e Guilherme Faria, músicos da Banda, que assumiram a liderança da escola de música, ministrando gratuitamente lições de solfejo e de instrumento, todas as terças e sextas-feiras, no 1.º andar do quartel dos Bombeiros V. de Espinho. 21,22,23
Em novembro de 1960, assume a regência da Banda o 1.º Sargento Manuel de Oliveira Gomes, que deixou a formação que regia para dirigir a Banda de Música dos B. V. de Espinho por motivos de ordem sentimental. Manuel, juntamente com os seus irmãos, Ilídio Gomes e António Gomes, foi um dos músicos de grande valor que receberam as primeiras luzes musicais na Banda do Soqueiro. Os três irmãos Gomes, naturais de Argoncilhe, eram músicos da Orquestra Sinfónica do C. M. do Porto e alcançaram carreiras de grande destaque como executantes, professores e maestros. 17,24,25,26
Manuel Gomes tocava corne-inglês e era professor de instrumentos de sopro na Academia de Música de Espinho. A sua formação militar trouxe à Banda um rigor e uma disciplina que rapidamente se traduziram num acentuado progresso deste grupo, que era, naquela época, a única associação artística em atividade em Espinho. 27,28
Manuel Gomes exerceu funções até ao início de 1962. Sucedeu-lhe alguém com, igualmente, profunda ligação afetiva à Banda: o seu irmão, António de Oliveira Gomes, consagrado professor e oboísta, que fora músico da Banda da Guarda Nacional Republicana de Lisboa. Quando assumiu funções em Espinho, António era também professor do Conservatório de Música do Porto, chefe da Banda da G.N.R. do Porto (sendo o responsável pela sua reestruturação) e membro da Orquestra Sinfónica do C. M. do Porto. 24,25,29
Graças ao notável nível artístico que a Banda alcançou sob a direção artística do maestro António de Oliveira Gomes, multiplicaram-se os convites para atuar nas mais distintas festividades do norte. A Banda era muito requisitada, vendo-se obrigada a recusar vários contratos por indisponibilidade de agenda. Pela sua qualidade e distinto repertório, esta formação conquistava o apreço do público pelas terras em que atuava. 30,31
Pelo seu passado ligado à Banda e pelo seu trabalho retumbante, que colocou a instituição num nível apenas comparável aos tempos de Joaquim Alves de Souza Neves, a Direção Autónoma da Banda conferiu-lhe o diploma de Sócio Benemérito da Banda de Música dos B. V. de Espinho. No entanto, por motivos profissionais, António Gomes via-se frequentemente impossibilitado de acompanhar a Banda nas festividades e concertos contratados. Por esse motivo, António Gomes transferiu o cargo de maestro efetivo para José Gonçalves, que já o coadjuvava na regência da Banda, e passou a assumir o papel de Diretor Artístico. 32,33,34,35,36
José Custódio da Silva Gonçalves, natural de Ponte de Lima e músico na Banda do Regimento de Infantaria n.º 6 do Porto, era um jovem trombonista que havia concluído a formação no Conservatório de Música do Porto com elevada classificação, o que lhe valeu um prémio da Fundação Calouste Gulbenkian. José era frequentemente solicitado para tocar bombardino na Banda de Música dos B. V. de Espinho desde os tempos de Manuel Gomes. Já sob a regência de António Gomes, que tinha sido seu professor no Conservatório, Gonçalves ganhou um relevo assinalável na Banda, assumindo o papel de regente adjunto e ficando responsável pelas lições de solfejo – ministradas às quartas e sábados. Por essa altura, com apenas 21 anos, tinha sido também convidado para dar aulas de Formação Musical na Academia de Música de Espinho. José Gonçalves fez a sua estreia como maestro na Banda de Música de Espinho, por iniciativa de António Gomes, e como regente adjunto, era frequentemente chamado a dirigir a Banda nas ausências do maestro titular. Como resultado do seu trabalho e fruto da sua qualidade, José Gonçalves foi proposto por António Gomes para a função de regente efetivo da Banda. 32,33,34
ARTIGO DE JORNAL
O Comércio do Porto
4 de setembro de 1962
Música no jardim (pelo correspondente em Viana do Castelo)
Algumas centenas de vianenses que ontem à noite desceram à Avenida da Marginal, ficaram agradavelmente impressionados com o facto de verem e ouvirem uma Banda de Música, tocando no coreto municipal (…). Era a Banda dos Bombeiros Voluntários de Espinho que tendo ido abrilhantar uma festividade perto de Caminha [Lanhelas], no seu regresso, e por iniciativa do seu regente [Silva Gonçalves], tomara a deliberação de dar um pequeno concerto para a gente de Viana (…). O público que assistiu ao concerto tributou-Ihe, bem como à Banda, prolongada ovação. 34
No período que se seguiu, António Gomes continuou a prestar generosamente a sua preciosa colaboração à Banda de Música dos B.V. de Espinho, desempenhando funções de Diretor Artístico e regendo a Banda nas ausências de José Gonçalves. Por exemplo, na primeira grande digressão da Banda à Cidade de Tui, na Galiza, em abril de 1964, António Gomes dirigiu o concerto da manhã por impedimento do regente efetivo. José Gonçalves dirigiu depois os concertos da tarde e da noite, tendo sido ambas as prestações calorosamente apreciadas. Essa jornada triunfal foi um verdadeiro sucesso, facto comprovado pelo convite renovado nos anos seguintes para repetir a participação da Banda nas Festas em Honra de San Telmo, padroeiro daquela cidade. 37,38
Em 1964 Benjamim da Costa Dias deixou a presidência da Banda. No entanto, isso não significou um afastamento. Nos anos seguintes, Benjamim continuou a lutar pela sua querida Banda com todos os instrumentos ao seu alcance. Recorrendo a artigos no seu jornal, apelava frequentemente aos espinhenses e às instituições, mobilizando-os para que não deixassem a Banda morrer. Muito deve a Banda de Espinho a este diretor que, durante anos, de forma abnegada, tudo fez para que esta instituição alcançasse os mais altos patamares de qualidade, honrando a sua terra e o seu passado. 37
António Gomes de Freitas substituiu Benjamim Dias na presidência da Banda ainda nesse ano. No final da época de 1964, foi anunciada a saída de José Custódio da Silva Gonçalves. A principal razão terá sido a incompatibilidade de agenda, uma vez que eram frequentes os impedimentos por coincidência de datas entre os compromissos da Banda dos B.V. de Espinho e os concertos da Banda da Infantaria 6, onde José Gonçalves tocava. Gonçalves tinha também concorrido a sargento, em Bombardino, sendo colocado em Lisboa, o que agravou a sua indisponibilidade. 37,39,40
Pouco tempo depois, no final de 1964, foi contratado o maestro João da Costa Baltazar, que havia sido chefe da Banda da Polícia de Segurança Pública do Porto, até à sua aposentação e vinha, há vários anos, regendo a Banda de Vale de Cambra. A sua apresentação oficial foi feita em dezembro de 1964 por Francisco Gomes de Castro, membro da Direção, numa sessão solene que decorreu no Salão Nobre da Piscina – Solário Atlântico e que foi presidida pelo Presidente da Câmara Municipal de Espinho, Dr. António Pereira Pinto. 40,41,42
Apesar do renome e da excelente qualidade que apresentava, a Banda de Espinho, como era já mais conhecida, deparava-se nesta época com a problemática da falta de um espaço próprio para a sua escola de música e para a realização dos seus ensaios. Nessa altura, a Banda ensaiava num pequeno espaço de um edifício na Rua 25, devido às obras que decorriam na sede da Corporação.43
Com o maestro João Baltazar a Banda de Espinho atingiu um admirável patamar, sendo muito requisitada para atuar nas principais festividades do Norte do país. A presença da Banda era muito disputada e a sua agenda de atuações estava repleta ano após ano. No país vizinho o êxito também era notório: por quatro anos consecutivos a Banda de Espinho abrilhantou as festas em honra de San Telmo, em Tui, na Galiza. 44,45,46,47,48
Como resultado do sucesso obtido na Galiza, a Banda de Espinho era frequentemente convidada para outras localidades espanholas. No ano de 1967, a Banda de Espinho atuou também em Vilagarcía, em Bouzas e na Cidade de Vigo, tendo sido a sua atuação nessa cidade elogiada no jornal Faro de Vigo. 49,50
Em 1968 assume a regência da Banda o maestro Daniel de Oliveira e Silva (“Farrapa”), que era trompetista na Banda da Força Aérea e também compositor. Esse ano ficou marcado pelo curioso caso judicial que opôs alguns moradores espinhenses à Banda de Música de Espinho. 51,52
Cento e tantos anos depois descobriu-se o crime!…
A Banda de Música vai acabar???
(…) signatários queixam-se de alergia aos sons musicais(…) 51
— Defesa de Espinho | 20 de Abril de 1968
Ensaiar uma banda de música não é transgressão
Devido às obras que decorriam nos Bombeiros Voluntários de Espinho, os ensaios da Banda de Espinho vinham a decorrer num local pequeno, na Rua 25, que não se adequava às suas necessidades. Foi então gentilmente cedido à Banda um outro local, com melhores condições, na zona norte da Vila. Pouco tempo depois, alguns moradores daquela zona onde se encontrava a casa cedida à Banda promoveram um abaixo-assinado contra a existência e a continuação dos ensaios da Banda de Espinho naquele local. Foi depois apresentada uma denúncia formal por esse conjunto de habitantes à Polícia de Segurança Pública de Espinho, o que motivou a aplicação de uma multa à Banda.
O benemérito Sr. Lino de Oliveira Marques (Pereira da Rocha), indignado com a insólita atitude daqueles habitantes, doou à Banda a quantia de 400$00 para o pagamento da multa. No entanto, a Direção deliberou não proceder ao seu pagamento: se o fizesse, considerar-se-ia, implicitamente, sempre em transgressão nos dias de ensaio. De acordo com a sua convicção, a atividade de uma banda filarmónica não poderia ser considerada uma transgressão, uma vez que isso significaria que a existência de coletividades do género estaria irremediavelmente sacrificada. Em virtude deste processo, a Direção da banda ameaçava entregar o seu mandato caso fosse decretada a impossibilidade de a banda continuar a ensaiar. Para os diretores essa decisão seria o fim da Banda de Música de Espinho e prometiam que esse desfecho não ocorreria sem que a Banda desfilasse pelas ruas da Vila, saudando ironicamente os que impediam a sua sobrevivência.
O Auto seguiu os seus trâmites e foi julgado no Tribunal da Comarca da Feira, no dia 8 de outubro de 1968. Entendeu o meritíssimo juiz que ensaiar uma banda de música não era, de maneira nenhuma, uma transgressão, considerando improcedente a acusação e absolvendo a Banda da transgressão imputada. 51,53,54
Apesar de todas as dificuldades, a Banda continuava muito requisitada, mantendo-se como uma das mais afamadas bandas filarmónicas do Centro e Norte do país. Continuava também a atuar regularmente em Espanha, como são exemplo as deslocações a Tabeirós (Pontevedra) e Monforte de Lemos (Lugo). 55,56
No início do ano de 1970, a Banda enfrentou um duplo impasse: com a saída de Daniel Farrapa a Banda ficou sem regente e, simultaneamente, sem local para ensaiar. O novo proprietário da casa cedida para esse efeito, na zona norte da Vila, deu por finda a autorização para que a Banda lá ensaiasse e, após a remodelação do quartel, não havia nenhum espaço disponível nos Bombeiros V. de Espinho. A Direção da Banda enfrentou esta grave crise, lutando para que os obstáculos fossem transpostos. 57,58,59
Com vista à resolução da problemática da falta de maestro, foi promovido um sorteio entre os espinhenses como forma de angariação de fundos que assegurassem o aumento de despesa acarretado pelo recrutamento de um maestro adequado ao estatuto da Banda. Ainda nesse ano de 1970, foi contratado o maestro Boaventura Alves Moreira. Natural da freguesia de Pedorido, no concelho de Castelo de Paiva, Boaventura Moreira era detentor do Curso Geral do Conservatório de Música do Porto e tinha frequentado o Curso de Regentes de Bandas Civis, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian. Encontrava-se há sete anos à frente da Banda de Pejão quando, a convite da Banda de Espinho e com a promessa de melhorar a sua vida profissional e financeira, se deslocou juntamente com a família para Espinho, onde, para além de dirigir a Banda, se estabeleceu profissionalmente com a ajuda da Associação. 57,58,60,61
Com a insistência dos seus dirigentes, foi também resolvido o desalojamento, tendo sido a Banda agraciada com um novo espaço disponibilizado pela Câmara Municipal, ainda no decorrer do ano de 1970. Foram cedidas duas salas à filarmónica de Espinho para a realização dos ensaios e para armazenamento dos seus instrumentos e restante material no edifício onde tinha funcionado uma secção da Escola Industrial e Comercial de Espinho, no ângulo das ruas 20 e 21. 59
Pela influência dos seus diretores e pela relevância social da Banda, foi possível angariar para a Banda músicos de grande valor, possibilitando-lhes novas perspetivas profissionais. Muitos músicos deslocaram-se definitivamente para esta vila para integrarem a Banda de Música de Espinho, e aqui conseguiram melhores condições de vida graças às portas que se abriram. No entanto, e apesar do enorme esforço dos seus dirigentes, a Banda atravessou um período de maior instabilidade a partir de 1970. Para além de alguns músicos que foram abandonando a Banda por mais diversas razões, ocorreu a emigração de um grupo de músicos que desempenhavam um papel muitíssimo relevante na Banda. Não havendo fundos para substituir à altura estes músicos emigrantes – que eram alguns dos seus principais executantes -, o número de contratos foi diminuindo, porque a Banda não tinha condições para aceitar mais atuações. 62,63,64
Embora com alguma dificuldade, a Banda resistiu e, a 13 de março de 1974 viveu mais um momento marcante da sua história: a sua constituição como associação autónoma e a aprovação dos seus próprios estatutos. Foram outorgantes Vítor Manuel dos Reis e Silva – que assumiu o cargo de Presidente da Associação; Alberto Fernandes Padrão – que quase vinte anos antes tinha promovido na Venezuela uma subscrição de grande valor a favor da Banda; e Delfim Pereira Lancha. A associação passou a denominar-se “Banda de Música de Espinho (dos Bombeiros Voluntários de Espinho)” e, segundo os estatutos, tinha “caráter independente” e gozava de “autonomia administrativa e financeira”. Apesar da autonomia, a Banda continuava ligada aos Bombeiros Voluntários de Espinho. Para além do nome que mantinha a ligação, a Banda voltou a ensaiar nos Bombeiros, que cederam novamente um espaço para a sede da Banda, num edifício contíguo ao quartel, na Rua 16. Nesse local, Boaventura Moreira também dirigia a escola de música, que funcionava três vezes por semana. No entanto, a Banda seguia com muitas dificuldades, como resultado das importantes ausências e da atividade diminuída. 65,66
Tudo mudaria em 1975, quando Guilherme Faria voltou da Venezuela e, encontrando a Banda quase estagnada, tudo fez para que voltasse ao nível que anos antes tinha alcançado. 64,67
1935 – 2000
Guilherme Faria Fernandes da Silva
Músico, diretor e mecenas
Guilherme Faria ingressou na escola de música da Banda por volta de 1952, quando ainda era regente da Banda o maestro Ilídio Neves. Aí iniciou a aprendizagem de música, a que deu continuidade de forma autodidata, complementando-a com alguns cursos, por exemplo, no Conservatório de Música do Porto. Apesar de também tocar saxofone, era na requinta e no clarinete que se destacava, sendo considerado um exímio executante. A partir de 1960, foi assumindo cargos de maior responsabilidade dentro da estrutura da Banda, envolvendo também a escola de música da Banda, onde os alunos aprendiam música gratuitamente com instrumentos cedidos pela associação. No início da década de 70, foi um dos importantes músicos que emigrou para a Venezuela. 64,67
Após cinco anos de ausência, Guilherme Faria voltou a Espinho, encontrando a Banda em grandes dificuldades. Com o precioso auxílio de alguns diretores e músicos, como o seu irmão António Faria e João Sá, lutou para que a Banda voltasse aos patamares que poucos anos antes tinha atingido. Guilherme Faria assumiu um papel muitíssimo relevante como executante, diretor e mecenas da Banda. A sua generosa contribuição manteve-se nas décadas seguintes, sendo o pilar sobre o qual assentava toda a estrutura da coletividade. 64,67,68
Sob a liderança de Guilherme Faria, foram operadas mudanças significativas na Associação. Boaventura Moreira foi afastado do cargo de maestro, função que seria desempenhada, nos anos seguintes, pelo músico militar e maestro Manuel Pleno e, intermitentemente, por José Gonçalves, até que, em 1981, este último regressou de forma definitiva à Banda de Música de Espinho como maestro. 68,69
José Custódio da Silva Gonçalves, que tinha deixado a regência da Banda de Espinho em 1964, tinha entretanto sido maestro da Banda de Vale de Cambra e da Banda de Revelhe (Fafe), que dirigiu durante dez anos (de 1971 a 1981). Em 1981, após várias investidas da Direção, voltou a assumir funções como maestro da Banda de Música de Espinho, da qual nunca se afastou completamente. De facto, desde a saída de Boaventura Moreira, Gonçalves tinha já voltado a dirigir por várias vezes a Banda. Por exemplo, dirigiu em 1976 o concerto com o Grupo Coral Académico de Espinho e em 1978 o concerto que se realizou no Casino de Espinho com a colaboração do Coro Popular de Espinho (da Cooperativa Nascente) em homenagem póstuma a Joaquim, Fausto e Ilídio Neves. 70,71,72,73
Com o regresso do maestro Gonçalves e com uma Direção bem comandada, a Banda rapidamente voltou aos níveis de atividade de anos anteriores, tornando a posicionar-se como uma das melhores do país. A Direção contava com o apoio de um grupo de músicos que, para além de serem executantes, formavam a “Direção Musical” da Banda. Neste período havia também a promessa de uma melhoria das condições físicas para os ensaios e para a escola da Banda, uma vez que estava previsto o alargamento do quartel dos Bombeiros, onde se incluiria um espaço com todas as condições para a Banda. A escola de música, que tinha Guilherme Faria como seu responsável e que contava com o apoio financeiro da Solverde, tinha mais de quarenta alunos a aprender música gratuitamente. Foi um período de grande vigor da associação. 69,73,74
Corpos Gerentes 1982
Direção
Vítor Manuel dos Reis e Silva – Presidente
Manuel Gomes da Silva (Sancebas) – Vice-Presidente
Delfim Pereira Lancha – Secretário
Alberto Fernandes Padrão – Tesoureiro
Américo Fernandes Padrão – Vogal
Direção Musical
Guilherme Faria Fernandes da Silva – Presidente
António Faria da Silva – Vice-Presidente
Augusto Martins Monteiro – Vogal
João Sá Gomes da Rocha – Vogal
Manuel da Silva Oliveira Marques – Vogal
— Defesa de Espinho | 17 de Março de 1982, p. 7
Em 1989 António Alberto Soares da Silva Mano assumiu o cargo de Presidente da Direção. Nesse ano, a Banda de Música de Espinho atingiu um marco extraordinário: 150 anos de história, afirmando-se como uma das filarmónicas mais antigas da região e como a associação com maior longevidade do concelho. Para assinalar tão inolvidável data, a Banda organizou um evento sem paralelo na memória da cidade de Espinho: um Festival de Bandas Filarmónicas, com a presença de oito das melhores bandas civis do país, que decorreu nos dias 23 e 24 de setembro de 1989, na esplanada a poente do Aparthotel. 74,75,76
150.º Aniversário da Banda de Música de Espinho
FESTIVAL DE BANDAS
Sábado, 23 de setembro de 1989
– Banda Nova de Fermentelos
– Banda Amizade
– Banda de Ponte de Lima
– Banda de Tarouquela
Domingo, 24 de setembro de 1989
– Banda Marcial de Fermentelos
– Banda Musical de Melres
– Banda de Música de Rio Mau
– Banda de Música de Espinho
Apesar dos notáveis resultados artísticos que a associação alcançava, as principais problemáticas mantinham-se. Não havia apoio financeiro suficiente e a Banda sobrevivia graças ao suporte do seu mecenas, Guilherme Faria. O impasse em torno da sede e da sala de ensaios da Banda também se tinha agudizado. A Banda foi obrigada a deixar o espaço que lhe tinha sido cedido devido a novas obras de alargamento do quartel. Por esse motivo, passou a ensaiar nas instalações da escola primária da Rua 23, cedidas pela Junta de Freguesia, que, no entanto, se encontravam bastante degradadas. 77
Em julho de 1994, a realização de um sorteio para angariação de fundos, levado a cabo pela Banda de Música de Espinho, haveria de colocar em conflito as direções dos Bombeiros Voluntários e da Banda de Música. A esse propósito, a Direção dos Bombeiros Voluntários de Espinho veio opor-se publicamente à utilização do seu nome nas rifas distribuídas para o efeito. Afirmavam que a Banda estava a “utilizar o nome da associação humanitária para fins exclusivos e manifestações alheias aos da instituição.” Por sua vez, a Direção da Banda argumentava que a Banda de Música de Espinho se denominava “dos Bombeiros Voluntários de Espinho” tal como constava no artigo 1.º do capítulo I dos seus estatutos, cujos outorgantes estavam institucionalmente ligados aos Bombeiros Voluntários. Consideravam, assim, que a Banda estava intimamente ligada aos Bombeiros, utilizando essa denominação há largos anos. Esta ligação era comprovada pelo facto de existir a promessa de um espaço expressamente pensado para a Banda no projeto de ampliação do quartel dos Bombeiros. Face à mudança de atitude da nova direção dos Bombeiros Voluntários de Espinho em relação à cooperação que se vinha verificando desde 1926, foi decidida a alteração da denominação da Banda de Música de Espinho, retirando-se a referência aos Bombeiros Voluntários. Este episódio pôs fim à ligação da Banda com os Bombeiros Voluntários de Espinho. 78,79,80,81
Ainda no decorrer de 1994, o então Major Gonçalves deixou a regência da Banda de Música de Espinho. O prestigiado maestro, “Ratinho”, como ainda é carinhosamente conhecido no mundo filarmónico, deixou na instituição um legado inigualável. Nos mais de quinze anos em que, no total, a dirigiu, logrou colocá-la entre as melhores bandas do país. Sob a sua batuta, a Banda de Espinho atingiu o apogeu da sua notoriedade. 81
No final desse ano, a Banda foi também forçada a deixar as instalações que lhe haviam sido cedidas pela Junta de Freguesia de Espinho (a antiga Escola Conde de Ferreira). Iniciava-se uma nova fase na história da coletividade, que ficaria marcada pela rutura definitiva com os Bombeiros de Espinho e pela escassez de apoio institucional – fatores que acabariam por ditar a necessidade de procurar acolhimento no concelho vizinho de Vila Nova de Gaia. 81